Thursday, September 16, 2010

Entrevista dada a Carlos Picassinos


1-Dez anos passados da transição, como é que descreves a situação da comunidade macaense em Macau? O que mudou e o que devia ter mudado?


Antes de mais quero deixar claro que o que o vou dizer é uma opinião meramente pessoal.

Penso que antes de  responder concretamente ao que me perguntas, julgo ser importante, e sem qualquer tipo de presunção,  suscitar a questão que se prende  sobre o uso de determinadas palavras e conceitos.  A definição de uma  palavra ou de um conceito aparentemente apresenta-se como um problema menor perante esta sequencia de perguntas extremamente interessantes que me colocas. Mas a verdade é que quando estas palavras e conceitos se confundem, se sobrepõem, ou se apresentam indefinidos, acabam por colocar barreiras e dificuldades que, a meu ver, dificultam  a que seja feita uma verdadeira reflexão e compreensão sobre os temas em apreciação, e, com isso, tornar impossível da minha parte responder às tuas perguntas.

Em primeiro lugar, penso que é preciso esclarecer o  que se entende por “comunidade macaense” sendo que frequentemente a ela se associam palavras, que regularmente são utilizadas como sinónimos, como  macaísta, macaense, cidadão de Macau, chinês de Macau e português de Macau. Sei que não é uma tarefa fácil e, quiçá, de tratamento melindroso, o que justifica que tanto se tenha (ou não) dito e escrito sobre esta matéria. Tenho a esse respeito uma opinião pessoal e, sendo ela pessoal, arrisco-me no entanto a ela aqui referir-me, esperando que, com isso, suscite um debate sério sobre a questão.

Com alguma frequência, é-se tentado a reduzir o conceito de comunidade macaense como sendo aquela que integra no seu seio aqueles indivíduos que amam Macau, aqui actualmente residentes ou não, cujos antepassados se fixaram em Macau e que são o produto de uma mestiçagem, ou seja, da união de um pai com uma cultura que não a chinesa com uma mãe oriental, ou vice-versa, e que, por essa razão, assimilaram uma cultura sui generis, que se foi enraizando ao longo dos tempos localmente, a qual revelando-se, no fundo, como que um caldo de culturas ( chinesa, portuguesa, malaia, indiana, etc), tornou-se naquilo que, em síntese, define e caracteriza a “cultura macaísta”. É esse caldo de culturas que penso encontrar-se, por exemplo, em manifestações culturais como o Patuá, a gastronomia macaista, etc. Quero no entanto crer, quando muito, que este entendimento se integra no que pessoalmente classifico de “ comunidade macaísta” que será, assim, uma comunidade entre as outras que coexistem em Macau e que todas elas, em conjunto, sem a supremacia de uma perante qualquer outra restante, formam a chamada comunidade macaense. Isto, na medida em que não consigo excluir do conceito de comunidade macaense todos aqueles que, não se encaixando na de macaísta, tendo nascido ou não em Macau e independentemente da sua nacionalidade, origens, credos e religiões, e amando igualmente Macau, tenham escolhido Macau como o local da sua residência e que se integrem nesse caldo de culturas que é a cultura macaense, perfilhando dos seus valores, das mais variadas naturezas, e do seu modo de vida e que, como cidadãos residentes, se interessem e se envolvam nos assuntos que a todos interessam e dizem respeito e se empenhem no seu progresso e no seu desenvolvimento.

É minha opinião pessoal que é por não haver um consenso do que se entende por comunidade macaense que tem sido tão difícil encontrar-se uma definição para o que se entende por “ identidade macaense” e que este conceito tenha a sua verdadeira e real expressão. Isto, contrariamente ao que se passa em Hong Kong, cujos habitantes simplesmente auto intitulando-se de “Hong-kongers”, embora não reneguem a sua nacionalidade, apresentam uma identidade bem definida, alicerçada numa comunhão de ideias, de projectos de futuro e de vontade de resolução de problemas que a todos dizem respeito.

Entendi fazer esta introdução porque, como compreendes, ser-me-á difícil nesta entrevista falar da comunidade macaense no seu todo, ou seja, nela integrando-se as várias comunidades que a compõem. Mas respondendo à tua pergunta, E, no que à comunidade macaense/ macaísta diz respeito, é possível dizer-se que ela atravessou esses dez anos sem grandes sobressaltos e que, se a sua presença foi acarinhada pelo anterior Chefe de Executivo, ela parece vir a ganhar novos contornos através de pequenos sinais que são transmitidos, como a especial referência que foi feita a esta comunidade, autonomizando-a das restantes, no discurso de apresentação do novo Chefe de Executivo, a forma como os seus representantes foram recebidos pelo Governo Central e até o facto de como o vídeo promocional da RAEM na Expo de Xangai teve como seu principal protagonista o macaense/ macaísta Miro. Espera-se que os elementos desta comunidade se revelem merecedores de serem auscultados com mais regularidade sobre as questões da RAEM e que, por seu mérito próprio, venham ocupar lugares e cargos de maior responsabilidade na sociedade macaense.

2.- Sei que te preocupas com o futuro da comunidade macaense, mas até agora não são publicamente visíveis novos líderes capazes de renovar a herança dos macaenses em Macau. Como é que vês esta ausência? E o facto de com a abertura da cidade ao mundo, os jovens serem mais seduzidos por outras identidades que a identidade nacional ou étnica?

Preocupa-me o futuro da Comunidade Macaense, e não apenas o da Comunidade Macaísta. Como disse na resposta anterior, penso que é fundamental  encontrar-se uma identidade Macaense, partilhada pelas diversas comunidades locais, de forma a que realmente a RAEM continue a ter o destaque e a importância que tem no contexto da  China. É a sua singularidade cultural e a sua história única que lhe dão as características que levaram o Governo Central a estabelecer a RAEM como a plataforma de ligação da China com os países da lusofonia.  Para que esta singularidade continue a existir, é preciso que as várias comunidades que formam esta grande família macaense aprendam a  respeitar-se, a compreender-se, e a amar esta terra única,  sem medos e preconceitos.

Falando do “Macaísta” especificamente, a sua origem está intimamente ligada ao intercâmbio entre o Oriente e o Ocidente, sendo que a sua cultura é o resultado desse intercâmbio de quase 5 séculos. O não compreender esta realidade, quer seja pelo Governo Central, o Local, as restantes comunidades locais ou até mesmo pela própria comunidade Macaísta, significará, a meu ver, o sentenciar ao desaparecimento desta que é provavelmente a grande riqueza cultural intangível da RAEM.

Numa perspectiva de futuro, penso que não poderá  descuidar-se do ensinamento da história local a todas as crianças e jovens que residem na RAEM, independentemente do seu sistema e língua de ensino. Uma população que desconhece os bons e os maus episódios da sua história nunca poderá identificar-se com a sua terra de nascimento/ residência/ acolhimento. Da mesma forma, julgo pessoalmente que seria importante integrar no  curriculum do sistema de ensino em português de Macau, mais propriamente na disciplina de história, um breve panorama da história da China,  assim como  o mesmo poderia ser feito, no curriculum das escolas Chinesas, ou seja, um pequeno fascículo introduzindo a história de Portugal e dos Paises Lusofonos em geral, os seus costumes e singularidades culturais, provavelmente integrados na disciplina de Português – disciplina obrigatória, pelo que sei, nas escolas luso-chinesas- ou na disciplina de história. Não pretendo ser polémico com estas sugestões, apenas me parece lógico que: se se ensina a dançar o folclore português em algumas escolas luso-chinesas, porque não ensinar também a sua origem? A diferença de Macau poderá e deverá, a meu ver, passar por isto: pela compreensão entre as diversas comunidades tradicionais e seculares da RAEM e pela abertura de um verdadeiro intercâmbio que as aproxime criando as condições para o desenvolvimento da tão desejada plataforma entre a China e o mundo da Lusofonia.

O ensino das línguas oficiais, refiro-me ao Cantonense,  Português e ao Mandarim, junto das diversas comunidades da RAEM é, evidentemente, fundamental para a criação dessa identidade macaense. O uso do Cantonense- que é, ainda,  a principal língua no sistema de ensino Chinês da RAEM- deverá ser aplicado nas instituições de ensino em português, por melhor se identificar com a génese de Macau, sendo a língua utilizada pela grande maioria da população local, e tendo o cantonense  expressões e palavras especificas a Macau. Penso que o Governo, a meu ver,  deveria fazer um esforço para tornar o ensino do português, que julgo ser obrigatório nas Escolas Luso Chinesas, mais rigoroso e inclui-lo como língua de opção, ou como 3a língua, nas restantes instituições de ensino.

Oiço com alguma frequência, no discurso politico oficial as palavras “Ngói kuok, Ngói  Ngou” (Amar a Pátria, Amar Macau). É, a meu ver, uma frase que  revela que existe a consciência de como  estes dois  conceitos são fundamentais para o futuro da RAEM, e que nunca poderão ser isolados.

Assim sendo, penso que será decorrente dessa falta de definição e posterior aceitação do que seja a identidade macaense que tardam em fazer aparecer não só os líderes da comunidade macaísta em si, mas das restantes comunidades. Podemos verificar isso nas eleições passadas. As listas mais votadas, as tradicionais, praticamente mantiveram as mesmas pessoas, e as listas denominadas “jovens”, acabaram por não ter resultados pelos próprios jovens não se reviram nas suas mensagens.

Sonho pelo dia em que  eventuais líderes que surjam da comunidade macaísta sejam aceites não apenas como lideres de uma pequena comunidade, mas e também como líderes da “comunidade macaense”, ou que surja verdadeiramente uma nova geração de lideres que, independentemente da comunidade a que pertence consiga responder às necessidades de toda a grande família macaense, independentemente das suas origens.

3.- Como é que vês, sendo de uma nova geração, o futuro próximo da comunidade, a sua afirmação política mas também social? Que problemas e que perspectivas?

Falando da Comunidade Macaísta, vejo um futuro semelhante ao das comunidades tradicionais de Macau, seja a chinesa da RAEM, ou a portuguesa: o interesse dos jovens pela sociedade passa necessariamente pelos mais velhos, cabendo a estes  o dever de os incentivar, de lhes partilhar os seus conhecimentos, dar-lhes oportunidades de partilhar ideias, de conversar, de discutir e de participar nas suas actividades.  Ao Governo, cabe dar às diversas comunidades a oportunidade de poder manifestar ideias,  de as incentivar a participar em actividades cívicas e sociais, de incutir-lhes espírito crítico e desenvolver a sua criatividade, incentivando-se, assim, o jovem a aprender a pensar sobre a RAEM como “cidadão”. Igual responsabilidade terão as associações tradicionais: sendo evidente o papel importante do associativismo em Macau, cabe às associações de índole politico, cívico e social da RAEM motivar os jovens para a participação e envolvimento nas suas actividades, pelo que, para isso,  devem  estar abertas à discussão e a incluir novas ideias provenientes da juventude. Esta resposta à tua pergunta, tem em conta , e volto a repetir quantas vezes for necessário,  ser fundamental encontrar-se essa noção de “comunidade macaense” e de  uma “identidade Macaense” conjunta, mais abrangente.  Essa identidade é, a meu ver, o motor para que os jovens pensem a RAEM com amor e consciência cívica. Essa identidade não coloca naturalmente em causa o futuro da “identidade Macaísta”, característica da comunidade “Macaísta”.

É evidente que é fundamental o papel da comunidade Macaísta no futuro da RAEM. E é fundamental que se preserve e se mantenha viva a sua cultura em Macau. Julgo, porém, ser difícil a preservação desta comunidade única e riqueza singular de Macau se não se procurar desenvolver a tal noção de “comunidade Macaense”, e de “identidade macaense”, mais abrangentes, de que falei.

4.- Achas que existe uma geração, enquanto tal, de jovens que se identificam enquanto macaenses, que vivem os problemas, que olham para o mundo sobretudo como macaenses ou isso está de algum modo a perder-se?




Acho que existe esse sentimento em jovens, independentemente da comunidade a que pertencem. Agora, e volto a repetir, é preciso que se encontre urgentemente um consenso, ou que surja vontade politica, para que se criem condições e lance às novas gerações a semente de uma “identidade macaense”. Para isso, é necessário que se tome a consciência de que não será com atitudes de costas viradas de umas comunidades para as outras que um futuro promissor surgirá.

Quanto à cultura Macaísta e à comunidade Macaísta em si, julgo que é do interesse do governo da RAEM e da Republica Popular da China que esta seja preservada. Para tal, será necessário que, em primeiro lugar, seja assumida a sua existência como comunidade singular da RAEM. Julgo que esse trabalho está a ser feito, primeiro, e volto a destacar, com o discurso de tomada de posse do novo Chefe do Executivo, em segundo lugar com o destaque do cantor “macaísta” Miro como cicerone do vídeo de apresentação do pavilhão da RAEM na  Expo em Xangai.  Isso, porém, não chega. Penso pessoalmente que a cultura Macaísta deveria ser divulgada pelo governo perante as novas gerações. A cultura Macaísta, seja as suas tradições  ou manifestações culturais especificas, como o Patuá- não como língua curricular, evidentemente, mas  como herança cultural reconhecida-  ou a gastronomia e algumas festividades específicas ( como o 24 de Junho e a sua importância para a comunidade), deveria ser divulgada junto das novas. Por outro lado, e de igual importância, será necessário que as instituições de ensino de português, nomeadamente a Escola Portuguesa e os estabelecimentos de ensino primário e infantil,  apresentem um currículo que garanta aos “Macaístas” um futuro possível e promissor na RAEM aos seus filhos. O “macaísta” pretende, acima de tudo, penso eu,  que lhe sejam garantidas as condições para que possa ter oportunidades de ingressar no mercado de trabalho local. Esta é a sua casa, é a sua terra. Se as instituições de ensino em português não lhes proporcionarem essas ferramentas essenciais para encarar o seu futuro em Macau, eles procurarão outras instituições de ensino em língua não portuguesa que mais garantias lhes dêem de futuro. Isso poderá ser um risco para o desaparecimento de algumas tradições e particularidades culturais da comunidade, principalmente as ligadas à língua portuguesa e a Portugal. Igual responsabilidade tem as associações “Macaístas”, que, como disse na pergunta anterior, tem a obrigação de  ensinar e divulgar a sua singularidade cultural. E, devo dizer, esse trabalho não deverá ser feito apenas junto da comunidade “Macaísta”, mas perante as restantes comunidades da RAEM. Como disse, é necessário que as várias comunidades tradicionais do território se respeitem, se compreendam, e dialoguem.

5.- Entendes que, de futuro, a presença dos macaenses ainda deve implicar um projecto de natureza (digamos assim) politica-parlamentar, com listas candidatas à AL, ou achas que a criação de uma associação de jovens macaenses pode ser um caminho válido? Que estratégia deve ser seguida?



Naturalmente, e na sequência do que tenho vindo a dizer relativamente à comunidade macaense, estou esperançado que depois de uma consciencialização colectiva da população sobre a sua identidade, novos modelos eleitorais e uma nova composição das listas eleitorais poderão talvez nascer. Ou não será tudo isto uma utopia?

Depois das últimas eleições legislativas, achas que a China olha hoje de modo diferente para o papel da comunidade macaense?

Falando da comunidade Macaísta, julgo que sim. Volto a destacar o discurso de apresentação do novo Chefe do Executivo, e relembro a chamada de membros da Comunidade Macaista a Pequim. Pequim dá destaque e reconhecimento à comunidade Macaísta no seu papel na sociedade Macaense. Porém, julgo ser importante ter em conta o que referi anteriormente em relação à divulgação perante as restantes comunidades locais das especificidades e riqueza singular cultura Macaísta, sob pena que esse reconhecimento por parte de Pequim não seja suficiente para que os alicerces aguentem o desenvolvimento económico feroz da RAEM.


6.- Em que sectores antecipas o futuro dos macaenses em Macau? Na administração pública, nas instituições de matriz portuguesa, nos negócios, no ensino? Como é que os macaenses se podem valorizar aos olhos da sociedade local?

Em todos que mecionaste. O “Macaista” tem potencial para singrar e ter posição de relevo em todas estas areas, assim como todos os outros “Macaenses” que considerem a RAEM como a sua terra. Para isso, porém, e como disse numa resposta anterior, é necessário que o ensino local proporcione aos jovens condições para singrar na sociedade Macaense.

Quero dizer com isto dizer que acredito que é na educação/formação que se encontra a perspectiva de futuro para qualquer jovem, não sendo excepção para o jovem macaísta. Porém, e volto a referir, que o factor do conhecimento da língua chinesa, falada e escrita, não é irrelevante. O que se compreende, como terá de se compreender que, durante a administração portuguesa, entre candidatos com idênticas qualificações académicas, a preferência fosse dirigida àqueles que entendessem o português, sendo que era esta a língua predominante na administração. Não seria realista se dissesse que achava que o Macaísta teria as mesmas possibilidades de singrar no mercado de trabalho local integrado no actual modelo se se mantiver o actual modelo de ensino da Escola Portuguesa. Isto,  apesar de o português ser hoje uma língua oficial na RAEM. É fundamental que o ensino em Português da RAEM tenha em atenção as exigências do mercado de trabalho local. O Ensino do chinês, primeiro do Cantonense, depois do Mandarim, é fundamental. Aos jovens Macaístas que optaram pelo ensino curricular Português, na Escola Portuguesa, vejo infelizmente sérias dificuldades de integração na Administração Pública , isto se não tiverem recorrido ao ensino paralelo de cantonense. Sei que se ensina o mandarim na Escola Portuguesa, mas o Cantonense apresenta-se facultativo. O que o Macaísta, por natureza, sabe falar  o cantonense, mas não deixa de ser um “handicap” o desconhecimento do Chinês escrito Tradicional, que é o utilizado em diversas regiões, como Macau, Hong-Kong, Taiwan, etc. Em relação ao mundo privado, porém, a dinâmica, a capacidade de comunicação e os conhecimentos das especificidades locais fazem da comunidade Macaísta uma comunidade muito requisitada pelo mercado privado local.

7.- Porque é que hoje faltam entre a comunidade macaense grandes figuras intelectuais de referência como as que existiam no passado?

Será que faltam essas figuras?  Não considero que a actual comunidade esteja desprovida dessas figuras. Pessoas como Leonel Alves, Sales Marques, Henrique de Senna Fernandes, Miguel de Senna Fernandes, António Conceição Junior, Carlos Marreiros, Vitor Marreiros, entre outros, e nas suas diversas areas, continuam a ser personalidades importantes, de destaque e de referência na sociedade local. Julgo que o que provavelmente se perspectiva, é que as novas gerações de Macaístas se apliquem mais em encontrar o seu espaço no Macau Pós Transição, naturalmente, hoje, mais virado para a comunidade Chinesa. Gradualmente, uma nova geração Macaista, com um maior dominio da lingua Chinêsa, surgirá e terá, se lhe derem oportunidade, o mesmo papel de destaque na sociedade local como o que tem a actual geração. Mas, está claro, é necessário que se lhes sejam proporcionadas as mesmas oportunidades que esta geração actual teve.

Quanto ao papel do lingua portuguesa nessa nova geração Macaista estará, como disse, irremediavelmente ligado à capacidade das instituições de ensino em português proporcionarem-lhes as ferramentas para poderem enfrentar em pé de igualdade os membros das restantes comunidades o Mercado de trabalho local.



8.- És um entusiasta da candidatura do patuá a património mundial? Se sim, porque consideras esta uma causa indispensável à afirmação dos macaenses? Essa afirmação depende da valorização do patuá? É assim? Não é uma causa perdida?

Sim, sou entusiasta, e sim, penso que é possivel. Julgo que esta não deverá ser uma causa meramente  de afirmação dos “Macaístas”, mas de todos os “Macaenses” e, porque não, da China,  como país de grande riqueza  multicultural que é. Cabe não só ao Governo, mas também a associações como à APIM, à ADM e mesmo à  Escola Portuguesa darem espaço ao dialecto para que este seja preservado e divulgado. Falando com algum “romantismo”, não existe Macaista que seja indiferente ao Patuá quando o ouve. Prova disso é o cada vez maior sucesso dos Dóci Papiáçam di Macau.


E nos Doci Papiaçam? É uma actualização das récitas? Tem, além do caracter mais teatral, uma ambição ligada ao reforço da identidade?

Não posso falar pelos restantes membros do grupo, mas posso dizer que decidi colaborar com o grupo única e exclusivamente pelo orgulho e privilégio que sentia (e sinto) como “Macaista” em poder colaborar neste projecto com tamanha tradição e significado. Tenho um respeito e admiração enormes pelo grande dr. Henrique de Senna Fernandes, o “nosso” grande escritor- que certamente ficará,  para sempre, ligado à história de Macau e dos “Macaistas”- e pelo seu filho, o Dr. Miguel de Senna Fernandes, a “alma” e o  “Mestre” de todo o Projecto Dóci. Como Macaista, sempre considerei os Dóci Papiaçám di Macau um motivo de orgulho e um expoente da nossa cultura singular.

   

3 comments:

  1. Caro Sérgio,

    Parabéns pelo lançamento do blogue e pela entrevista.

    Os pontos focados são melindrosos, como bem dizes. Há, no entanto, uma passagem que me despertou especialmente a atenção: «em Hong Kong, cujos habitantes simplesmente auto intitulando-se de “Hong-kongers”, embora não reneguem a sua nacionalidade, apresentam uma identidade bem definida, alicerçada numa comunhão de ideias, de projectos de futuro e de vontade de resolução de problemas que a todos dizem respeito».

    Com isto, disseste tudo! É isto que, para mim, faz a gigantesca diferença entre Hong Kong e Macau, e é isto que fará com que a região vizinha mantenha e aprofunde a sua autonomia, enquanto que Macau e a sua comunidade macaísta/portuguesa serão consumidas pela grande China. É também por isto que eu, embora adore Macau por razões pessoais e históricas, apenas admiro Hong Kong...

    Desculpa-me a franqueza, meu amigo...

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  2. Obrigado, Nuno!Não era bem minha intenção começar um blog. Se o actualizar, será com fotos e provavelmente postas sobre produção de cinema e vídeo mais alguns interesses e hobbies, nada de sério. Neste momento, isto serviu apenas para colocar a entrevista online para quem se "assustou" com o texto da revista Macau :)

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  3. Ok, hei-de vir cá espreitar de vez em quando :-)
    Um abraço e até breve, espero!

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